A Queda e a Culpa Imputada

A queda e a culpa imputada

Por Tiago Hirayama 20/12/2012

Hoje acredito ser importante falar sobre um assunto de bastante relevância para a Bíblia, a queda do homem. Quando falamos “a queda do homem” se referimos ao acontecimento de Gênesis 3, onde o homem desobedeceu conscientemente a ordem clara de Deus no capitulo 2 verso 16-17.

A desobediencia consciente teve suas consequencias, e uma dessas consequencias foi  3 punições eternas sobre a humanidade. Quando falo “desobediencia consciente” quero dizer que a ação de Adão foi totalmente consciente, ele sabia da consequencia pois tinha recebido uma ordem direta, clara e simples de Deus. Também seria bom realçar um ponto importante em torno do qual existe muita especulação, o ponto é se Adão tinha ou não o tal “Livre-arbítrio”, ao meu entender essa questão (se Adão tinha ou não o livre-arbítrio) é irrelevante, embora exista uma ordem para se comer de toda a arvore “livremente”(Gn 2:16), isso não prova que Adão tinha o “livre-arbítrio”, isso apenas nos mostra que Adão tinha uma responsabilidade moral a cumprir. Para afirmar o “livre-arbítrio” outros também afirmam que responsabilidade moral pressupõe liberdade, entretanto, a responsabilidade moral não pressupõe liberdade, de forma nenhuma, isso esta totalmente fora da Bíblia, na verdade a responsabilidade moral refere-se a ter obrigação de prestar contas, ou seja, alguém ser moralmente responsável significa que ele está moralmente obrigado a alguma pessoa ou padrão. A questão “se a pessoa é livre ou não” é irrelevante para a discussão. A única questão relevante é se alguém que tem autoridade sobre essa pessoa decidiu considerá-la obrigada a prestar contas. Visto que Deus governa sobre toda a humanidade, e Ele decidiu julgar todos os homens, isso significa que cada pessoa é moralmente responsável, a despeito deles serem livres ou não.

Portanto as punições eternas sobre a humanidade são: (1) a inimizade entre a descendência da serpente (não eleitos) e o descendente da mulher com sua descendencia (Jesus e os eleitos) (Gn 3:15, promessa a Abraão também Gl 3:16), (2) A punição sobre a mulher consiste nas dores do parto, e na obediência ao marido (Gn 3:16), e (3) A punição  sobre o homem foi a mais severa, trabalho duro e finalmente a morte física (Gn 3:17-19), embora muitos concordem com o significado da palavra morte estar relacionada com a morte espiritual, a morte física também foi uma consequência dessa desobediência.

Culpa imputada

Culpa imputada significa que a desobediência de Adão resultou em culpa, e como ele era o representante legal da humanidade, essa mesma culpa foi imputada em toda sua posteridade, ou seja, em toda raça humana, todos são declarados culpados. Essa desobediência é chamada de pecado e algumas teologias sistemáticas encontraremos o termo “pecado original” se referindo aquele primeiro ato de desobediência, mas também existe outros que afirmam que o “pecado original” não se refere ao primeiro ato de desobediência, mas sim aos efeitos da desobedência. No entanto acredito que o termo “pecado original” pode pressupor várias coisas, Wayne Grudem em sua sistemática diz o seguinte “pecado original parece ser tão fácil de ser mal interpretado para se referir ao primeiro pecado de Adão, ao invés do pecado que é nosso como um resultado da queda de Adão”. Assim preferi o termo “culpa imputada”, que vai direto ao correto entendimento sobre o pecado que foi imputado sobre toda a humanidade. Também é mais fácil de entender  “culpa imputada” quando lembramos que existe 3 grandes imputações na Bíblia, (1) A culpa imputada na humanidade pela desobediência de Adão (Rm 5:12), (2) O nosso pecado imputado na pessoa de Jesus Cristo (Is 53:4-8), e (3) A Justiça de Deus imputada no eleito somente através da obra perfeita e redentora de Jesus Cristo que satisfez a ira demandada pela desobediência a lei (Rm 4).

    O pecado de Adão resultou na culpa imputada, e também em uma corrupção herdada. Wayne Grudem coloca em sua sistemática que  essa corrupção herdada não significa que o ser humano é tão ruim quanto ele possa ser, apenas significa naquilo que diz respeito a Deus, nós não somos capazes de fazer nada que agrade a Ele. Isso implica duas verdades: (1) Em nossa natureza estamos totalmente carentes de bem espiritual diante de Deus, e (2) Em nossas ações estamos totalmente incapacitados de fazer algum bem espiritual diante de Deus. Portanto o homem se encontra em um estado de completa insuficiência espiritual, ou seja, morto assim como Deus falou que estaria se comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Os Efeitos da Queda

Chegamos em uma parte onde é necessário uma explicação sobre os efeitos ou resultados da queda do homem. Como já explicamos acima, a queda resultou em punições eternas sobre a humanidade, mas não falamos sobre a morte espiritual, então esse é o momento para explicarmos as diferentes posições quanto ao entendimento dos efeitos ou resultados da queda.

  1.    Pelagianismo: O pecado de Adão não teve nenhuma influência sobre as almas de seus descendentes além de, através de seu exemplo pecaminoso, encorajar outras pessoas a também pecar. De acordo com essa opinião, o homem tem a habilidade de parar de pecar se ele quisesse.
  2.   Arminianismo: Os arminianos acreditam que o pecado de Adão resultou no resto da humanidade herdando uma tendência a pecar chamada de “natureza pecaminosa”. Essa natureza pecaminosa nos leva a pecar da mesma forma que a natureza de um gato o leva a miar – ocorre naturalmente. De acordo com essa opinião, o homem não pode parar de pecar sozinho, por isso Deus dá uma graça universal, a qual o capacita a parar. Essa graça é chamada de graça preveniente. Também de acordo com essa opinião, não somos responsáveis pelo pecado de Adão, apenas os nossos.
  3.   Calvinismo: O pecado de Adão resultou não só na nossa natureza pecaminosa, mas também em culpa diante de Deus, pelas quais merecemos punição. Ser concebido com o pecado original sobre nós (Salmos 51:5) resulta em nós herdando uma natureza pecaminosa tão perversa que Jeremias 17:9 descreve o coração humano como “enganoso … mais do que todas as coisas, e perverso”. Adão foi não só culpado por causa do seu pecado, mas sua culpa e punição (morte) pertencem a nós também (Romanos 5:12,19). Há duas opiniões sobre por que Deus deve enxergar a culpa de Adão como pertencente a nós também. A primeira afirma que a raça humana fazia parte de Adão em forma de semente; portanto, quando Adão pecou, pecamos nele. A outra opinião é de que Adão serviu como nosso representante federal e como tal, quando ele pecou, tornamo-nos culpados também.

        Primeiro gostaria de estabelecer uma pressuposição que acredito ninguém será contra, (pelo menos os Cristãos saudáveis) é que a universalidade do pecado é um fato, não somente a Bíblia nos afirma explicitamente sobre ela, mas também nos ensina que dentro do próprio ser humano existe uma consciência ou um senso de “certo e errado” (Rm 2:15) cujo qual nos acusa e nos defende. De acordo com Romanos 3:9 em diante, Paulo conclui sua argumentação de que todos, tanto judeus como gregos estão debaixo do pecado e que o significado da lei é realmente mostrar que o homem é incapaz de ser perfeito. Portanto assumindo essa posição, já podemos descartar a posição Pelagiana, sem nem analisar seus argumentos, pois suas pressuposições iniciais já estão erradas, e seria tolíce e perca de tempo discuti-las.

        Segundo, o arminianismo vai de encontro ao tempo verbal escolhido para “todos pecaram” em Romanos 5:12 e também ignora o fato de que todos sofrem a punição do pecado (morte) mesmo quando não pecaram de uma forma semelhante à de Adão (1 Coríntios 15:22; Romanos 5:14-15,18). Além disso, a Bíblia não ensina em lugar nenhum a doutrina da graça preveniente.

Um argumento frequente dos arminianos é que “A queda de Adão foi suficiente para condenar, mas não é efetiva. Me torna condenável, mas só sou condenado quando cometo um ato pecaminoso.” Pelo fato de alguns tentarem objetar que isso não é arminianismo, irei citar o próprio Jacob Arminius e suas implicações:

“podemos admitir a discussão, se Deus poderia estar com raiva por causa do pecado original, que nasceu conosco, pois ele parecia ser infligido a nós por Deus como castigo do pecado efetivo que tinha sido cometido por Adão e por nós nEle … Eu não nego que era pecado, mas não foi pecado efetivo  … é preciso distinguir entre o pecado efetivo, e aquilo cujo era a causa de outros pecados, e que, por isso nessa mesma descrição talvez possa ser denominado pecado.”

    Essa colocação é geralmente interpretada por ambos Calvinistas e Arminianos, no significado de que Arminius está disposto a falar sobre o pecado Adâmico no sentido de que produz ações pecaminosas na posteridade de Adão, por causa da natureza corrupta que receberam dele, mas não pode ser chamado de pecado “efetivo” de sua posteridade no sentido de que eles são de qualquer jeito culpados pelo pecado de Adão.

    Dr. Willian W. Combs em sua demonstração do que o arminianismo crê conclui que, qualquer coisa que concluirmos a respeito do próprio Arminius, parece claro que seus seguidores imediatos afirmaram que a humanidade não é culpada do pecado de Adão. O homem recebe uma natureza corrupta de Adão, mas isso é apenas uma desventura, de nenhuma forma é uma consequência penal do pecado de Adão. Portanto depravação pode ser descrita como uma privação pessoal, e não uma depravação. Depois disso poderia dar mais evidências de que a citação dada a cima é claramente arminiana mas prefiro optar somente a essa, pois acredito ser suficiente.

A Efetividade da Queda

A efetividade da queda de Adão precisa ser explicada porque já podemos encontrar pessoas enfatizando muito especulações em detrimento da própria doutrina bíblica. Por exemplo a frase “A queda de Adão foi suficiente para condenar, mas não é efetiva. Me torna condenável, mas só sou condenado quando cometo um ato pecaminoso”, na verdade, não passa de pura especulação, e também podemos dizer que é arbitrária. Porque (1) Falta comprovação escriturística, e (2) Falta um regulador de princípios.

Nós podemos encontrar facilmente comprovação escriturística para provar o contrário do que essa frase afirma, por exemplo Romanos 5:12; 1 Coríntios 15:21-22. A morte sempre foi a punição para essa desobediência, tanto a morte física como a morte espiritual. Portanto se não estamos condenados, porque então recebemos a punição? Por exemplo bebês que morrem, alem de nascerem em pecado (Sl 51:5), e herdarem uma natureza corrupta (Ef 2:3), ainda recebem a punição da morte, que é uma evidencia clara de que todos já nascem culpados e pecadores. Outro exemplo são aqueles que são portadores de deficiência mental, eles morrem, não morrem? De qual pecado eles são culpados? Visto que são incapazes de raciocinar corretamente.

Bem, está claro que a culpa não é efetivada quando pecamos mas sim imputada em nós desde quando nascemos.

Ainda precisamos falar sobre um regulador de princípios. De acordo com o argumento acima, o homem só é condenado quando comete o primeiro pecado. Embora já temos  provado que o argumento não permanece firme com uma analise mais profunda, e comprovamos que não é bíblico, ainda desejamos estabelecer os princípios corretos para que todos tenham uma cosmovisão bíblica e saudável sobre esse assunto e para isso precisamos estabelecer então o que é pecado, precisamos estabelecer um princípio ou uma pressuposição da onde podemos partir. De acordo com alguns dicionários teológicos o Pecado é a falta de conformidade, ativa ou passiva, com a lei moral de Deus. Isso pode ser uma relação de ato, de pensamento, ou de disposição interior ou estado.   Pecado é qualquer falta de conformidade com a lei moral de Deus em ações, atitudes, ou natureza. Mas alguns podem objetar que não estamos sendo fiéis as escrituras pois estamos usando definições de homens, e para ir de encontro com essa objeção podemos usar os textos de 1Jo 3:4 e Rm 14:23 para definir o pecado da seguinte forma:

O pecado além de ser a transgressão da lei, é também tudo aquilo que não provém da fé, ou seja, incredulidade.

Vemos que 1Timóteo 2:14 diz que Adão não foi iludido mas sim que a mulher sendo enganada caiu em transgressão. Então o problema que fica em nossa mente é que se pecado é aquilo que não provém da fé, ou seja, incredulidade, onde está a incredulidade de Adão?

Para responder essa pergunta precisamos primeiramente e especialmente definir o que é fé de acordo com a Bíblia e a melhor definição de fé que encontrei vem do professor S.Lewis Johnson de Dallas, TX. Ele diz que fé bíblica é feita de 3 elementos, (1) conhecimento ou percepção, (2) concordância ou assentimento, e (3) Que depende da confiança ou que revela confiança (Fidúciario).

Conhecimento ou percepção, Dr. S.L.Johnson explica que não existe fé se não houver conhecimento dos fatos por exemplo do Evangelho, ou seja, sem a explicação dos fatos de que Jesus foi crucificado no madeiro, morreu pelos pecados dos seus, e ressuscitou ao terceiro dia e foi visto por muitos, não existe Evangelho, e muito menos fé. Mas não é suficiente apenas ter conhecimento dos fatos, também precisa ter concordância ou assentimento, ou seja, o Espírito Santo precisa convencer uma pessoa de que esses fatos são verdadeiros para que ela venha concordar com os mesmos. Mas somente esses dois ainda não são suficientes, pois existem muitas pessoas que conhecem os fatos e que concordam com eles, mas será que realmente depositam confiança neles?

Dr. S. L. Johnson então conclui que para uma pessoa ter uma fé verdadeira, não é suficiente ter apenas o conhecimento dos fatos, e também não é suficiente concordar com os fatos, mas também precisa confiar neles como única verdade revelada.

Agora podemos ver como a incredulidade de Adão se encaixa perfeitamente nessa definição, pelo fato de que Adão conhecia a ordem de Deus, e também sabia da consequencia, logo desobedeceu porque lhe faltou confiança.

Culpados

O paralelismo colocado por Paulo em Romanos 5:12-21, é um paralelismo entre lados opostos: (1) por causa do pecado de Adão todos os homens estão CONDENADOS efetivamente e recebem a punição por isso (a morte), ou em outras palavras a queda de Adão é suficientemente efetiva para condenação de todos! (2) Por causa da obediência de Cristo e somente por causa dela, muitos serão perdoados, portanto, de acordo com o contexto, a analogia de Cristo e Adão na verdade é para mostrar que aquilo que um homem (Adão) fez afetou todos, e aquilo que outro Homem (Jesus) fez afetou muitos outros, por isso no versiculo 19 é nos falado que pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, mas pela obediência de um só, muitos se tornarão justos.

No argumento de Paulo nos versiculos 12-14 é nos mostrado 4 elementos lógicos: (1) Pecado entrou no mundo por um homem v.12a. (2) a morte entrou no mundo pelo pecado da desobediência v.12b. (3) a morte se espalhou para todos os homens porque todos pecaram v.12c. (4) e a história prova que a morte reinou sobre todos os homens v.13-14.

“Portanto nós somos pecadores não porque pecamos, na verdade nós pecamos porque somos pecadores.”

Conclusão

Concluímos então que Adão desobedeceu porque lhe faltou confiança. Se os decretos de Deus já estavam determinados que ele pecaria, isso é um assunto para um outro material. O que estamos tratando aqui é o fato de que Adão caiu, e recebeu a punição devida pela desobediência. Essa única desobediência trouxe punições eternas para a raça humana.  Como Adão era nosso representante na mente de Deus,  sua desobediência resultou em culpa, e essa culpa foi imputada em toda sua posteridade. Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram (Rm 5:12).

A queda de Adão é suficientemente efetiva para condenação de todos. Porque todos recebem sua punição, a saber, a morte. Mas dou graças ao meu Deus, que providenciou uma justificação tão excelente e perfeita em Jesus Cristo nosso Senhor e Salvador. Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus. E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado (Rm 5:1-5).

Em relação a representação federal subscrevo o que Vincent Cheung diz em sua sistemática: “Adão representou a raça humana no Éden como um “cabeça federal” e não como um “cabeça orgânico”. Toda a humanidade está condenada por seu pecado, não por causa de relação física com ele, mas porque ele a representava na mente divina; isto é, Deus soberanamente determinou que Adão representasse toda a humanidade no Éden. Portanto, toda pessoa concebida após Adão está condenada pela culpa herdada mesmo antes do indivíduo ter uma oportunidade de cometer quaisquer pecados pessoais. Quando ele pecou, toda a humanidade pecou; quando ele ficou sob condenação, toda a humanidade ficou sob condenação (Rm 5:18).

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