Israel e a Igreja

Israel e a Igreja

Por Tiago Hirayama Seminário Spurgeon Fortaleza 13 de Junho de 2013

Introdução a uma pequena análise crítica sobre o tema Israel e a Igreja.

Uma guerra hermenêutica tem sido travada entre dispensacionalismo e aliancismo quando o assunto é Israel e Igreja. Sempre notamos extremos em ambos os lados e até chegando ao ponto de uma simples conversa se tornar em disputas fervorosas ao ponto de pararem de se falar no dia a dia. Eu gosto de chamar essa disputa de batalha hermenêutica. De um lado extremo vemos “rigorosos” dispensacionalistas segurando firme em uma distinção rígida entre Israel e a Igreja, do outro lado extremo vemos os “substituídos” aliancistas segurando uma substituição total da nação étnica de israel pela igreja. Entre esses dois extremos temos variantes que acredito ser mais honestas e mais bíblicas. Essa é uma forma bem simplista de descrever algo que é bem mais complexo do que se parece ser, por isso gostaria de entrar em alguns poucos detalhes sobre essa batalha. Lembrando de que não entrarei em detalhes históricos, tais como, quem foi o fundador, ou quando começou.

Dispensacionalismo

O dispensacionalismo é a chave hermenêutica que afirma uma histórica literal/normal interpretação gramatical dos textos sagrados. Alguns afirmam que o velho testamento interpreta o novo. Não somente isso, mas em uma perspectiva dispensacionalista podemos ver claramente a afirmação de que a intenção autoral do escritor do VT determina seu verdadeiro significado. Em outras palavras, afirmam que através de seu método de interpretação chegam a entender qual era o verdadeiro sentido que o autor pretendia quando escreveu, assim dizendo, o mais literal possível. Por isso sua “normal e literal” interpretação do VT leva a conclusão de que as promessas de aspecto escatológicas feitas à nação étnica de israel ainda não foram cumpridas, tais como Isaías 65:17-25, Ezequiel 37:21-28, Zacarías 8:1-17, etc…Por isso sua leitura natural dos textos levam eles a entender que o Israel étnico não tem ligação com a igreja de Deus, no entanto não gosto de generalizar, porque existe varias variantes dentro do próprio grupo dispensacionalista, cito John MacArthur que para muitos teólogos da teologia da aliança é um teólogo da aliança “confuso” (Isso o próprio MacArthur fala em sua abordagem sobre a distinção entre israel e a igreja). Cito:

“Existe uma diferença entre a igreja e israel e ponto. Se você entende que a essência do que eu creio seja um legítimo dispensacionalismo bíblico, isso permite um reino, isso ordena um reino e isso o torna um pré-milenista, porque se você crê que existe uma distinção entre israel e a igreja, logo igreja não é israel. E se igreja não é israel, as promessas de um reino para israel precisam ser cumpridas e é por isso que precisa-se ter um reino”. [1]

Novamente cito um outro dispensacionalista bem conhecido, Charles Ryrie diz:

Todos dispensacionalistas afirmam um distinção clara entre israel e a igreja. Israel é uma nação étnica. (Com certeza ele está contrastando as palavras israel e igreja dentro das escrituras). [2]

Nessa distinção feita pelo grupo dispensacionalista entre israel e a igreja existe variantes, existem aqueles que creem em um sobrepor entre os dois grupos. Esse sobrepor consiste em cristãos judeus, tais como os apóstolos que eram etnicamente judeus porém depositaram sua fé, sua confiança em Jesus Cristo. Podemos ver uma explicação mais profunda a respeito desse assunto no livro de Blaising Progressive Dispensationalism 1993.

Dispensacionalistas sempre creem em uma tribulação, sempre creem em um arrebatamento literal, onde as pessoas irão ser de alguma forma transladadas da terra para o céu, nesse meio tempo, irão se encontrar com Jesus nos ares assim como está descrito no livro de 2 tessalonicenses e que futuramente israel terá um reino politico/civil aqui na terra, onde serão cumpridas as profecias do VT.

Dispensacionalistas são sempre pré-milenistas, isso quer dizer que acreditam na segunda vinda de Jesus Cristo antes do reino milenar descrito no livro de apocalipse 20, no quesito tribulação existem variações, existem aqueles que acreditam na segunda vinda pré-tribulacional e aqueles que acreditam na segunda vinda pós-tribulacional e existe também aqueles que são mid-tribulacionistas, acreditando que a segunda vinda acontecerá no meio da tribulação.

Dispensacionalistas clássicos referem-se a igreja de hoje como um “parênteses” ou um intervalo temporal no processo da história profética de israel. Já o dispensacionalismo progressivo suaviza a distinção dizendo que algumas promessas do velho testamento são expandidas ao novo testamento para que dessa forma incluísse a igreja. Entretanto os progressistas nunca afirmam que a expansão significa uma substituição de promessas feitas ao seu público original, israel. [3]

Quais são os aspectos ou assuntos abordados pelo grupo dispensacionalista? (na visão de um dispensacionalista)

  1. Hermenêutica – Em particular as passagens que o Novo Testamento faz uso do Velho Testamento e como abordar passagens que lidam com as doutrinas do povo de Deus e fim dos tempos.

  2. Reino – O Propósito do Reino de Deus (incluindo o milênio e os propósitos de Deus para o futuro).

  3. Povo de Deus – A relação entre Israel, Gentios, a Igreja, as Nações. (afirmam existir dois povos de Deus, Israelitas e os gentios salvos que é a igreja)

  4. Lei de Deus – A relação entre o pacto Mosaico e a aliança do Novo Testamento. (Lei de Moisés e Lei de Cristo) [4]

Podemos ver na descrição feita por um dispensacionalista que há uma distinção clara dentro do povo de Deus. O povo de Deus para o dispensacionalista é separado em dois grupos, Israel e os gentios salvos.

Gostaria de realçar alguns pontos do dispensacionalismo que acredito ser de grande importância para o entendimento desse sistema de interpretação.

1. Importância dada aos textos proféticos tanto do antigo testamento como do novo testamento (Hb 8, Rm 11…).

2. Importância dada a hermenêutica histórica literal/normal gramatical.

3. Importância dada ao povo étnico de israel.

4. Importância dada aos propósitos de Deus para o futuro de Israel étnico.

Teologia da aliança

A teologia da aliança difere-se em vários aspectos do dispensacionalismo, começando pela hermenêutica, logo de início já podemos ver uma diferença de abordagem na interpretação do texto, pois afirmam estreitamente que o NT tem prioridade na interpretação do VT, pois a revelação é progressiva, e sendo progressiva, os autores do NT foram inspirados pelo Espírito Santo a revelar os mistérios outrora ocultos em tipos e figuras.

A diferença fundamental entre os sistemas supracitados é na verdade visto com mais clareza quando entramos no assunto Israel e a igreja.Dr. J. Ligon Duncan nos oferece uma explicação sobre essa diferença de abordagem:

“Teologia da aliança vê a igreja como um cumprimento de israel na profecia da nova aliança. A teologia da aliança é feliz em reconhecer a singularidade da igreja, especialmente na fase pós-pentecoste. Entretanto a teologia da aliança vê todos os crentes em uma continuidade essencial. Não existe dois povos de Deus, o que há é apenas um povo de Deus. [5]

Quando falamos de teologia da aliança não podemos esquecer que suas ênfases estão também em outras áreas, tais como, (1) alianças ou pactos feitos com seus escolhidos, Abraão, Moisés, Davi, etc…(2) o relacionamento entre Deus e a humanidade como um reflexo do relacionamento existente entre as três pessoas da Santíssima Trindade [6], etc…

Uma coisa importante que gostaria de realçar são as alianças ou pactos que os teólogos da aliança afirmam.

1. Pacto da redenção. 2. Pacto das obras. 3. Pacto da graça

1. A aliança ou pacto da redenção é o acordo eterna dentro da Divindade em que o Pai nomeou o Filho Jesus Cristo, pelo poder do Espírito Santo para resgatar seu povo eleito da culpa e do poder do pecado. Deus designou Cristo para viver uma vida de perfeita obediência à lei e ao morrer uma penal, substitutiva, morte sacrificial, como representante federal para todos aqueles que nEle confiam.[7] Existem grupos que discordam dessa aliança também.

2. A aliança ou pacto das obras foi feita no Jardim do Éden, entre Deus e Adão, que representava toda a humanidade como um cabeça federal. (Romanos 5:12-21) Ele prometeu vida pela obediência e morte pela desobediência. Adão e toda a humanidade em Adão, quebrou o pacto, assim permanecendo condenado. O pacto das obras continua a funcionar após a queda como a lei moral.[8]

3. A aliança ou pacto da graça promete a vida eterna para todas as pessoas que recebem o perdão dos pecados por meio de Cristo. Ele é o representante pactual substitutivo que cumpri  pacto das obras em seu lugar, em ambas as exigências positivas da justiça e suas negativas conseqüências penais (normalmente descrito como sua obediência ativa e passiva). É a expressão histórica da aliança eterna da redenção. Gênesis 3:15, com a promessa de uma “semente” da mulher que iria esmagar a cabeça da serpente, é geralmente identificada como a inauguração histórica do pacto da graça.[9]

Gostaria de lembrar que dentro da teologia da aliança também existe variações, por isso é muito difícil descrever perfeitamente o que cada teólogo ou cada linha de pensamento defende. Por isso existe livros e mais livros focados somente nesse assunto.

Realçando alguns pontos importantes dentro desse sistema:

1. Importância dada as alianças incondicionais feitas por Deus.

2. Importância na interpretação dos textos enfatizando a revelação progressiva, gerando dessa forma uma autoridade do NT sobre o VT.

3. Importância do povo de Deus como sendo apenas um, tanto Israel como gentios estão dentro do mesmo grupo (Rm 11), esmagadora maioria defende a substituição de israel pela igreja.

Ponderações finais

Já mencionado acima, tanto o dispensacionalismo como o aliancismo abordam muitos outros tópicos que não são citados nessa pequena análise, entretanto gostaria de deixar alguns pontos a respeito de Israel e a Igreja que tanto dispensacionalistas como aliancistas concordariam, e nesse assunto dependo do professor e pastor Rômulo Monteiro que me ajudou bastante a ver as diferenças e as igualdades que existe entre esses dois grupos, grupos tais que cito agora, dispensacionalismo progresivo, nova teologia da aliança, aliancistas pré-milenistas, e teologia da substituição. É um vasto material para ser analisado e debatido. Portanto se me equivoquei ou esqueci de demonstrar outros aspectos importantes dentro de cada sistema me perdoem, prometo que irei me esforçar para melhorar os comparativos e também ser justo com as posições citadas. Portanto vai os pontos que provavelmente ambas chaves hermenêuticas concordariam:

1. Israel pode significar tanto literal, descendência física de Abraão como figurativa Israel espiritual, depende do contexto, por exemplo gálatas 6:16, na própria bíblia comentada por MacArthur ele diz: Israel de Deus significa todos os cristãos judeus em Cristo, ou seja, aqueles que são descendentes tanto biológicos quanto espirituais de Abraão.

2. Israel e a Igreja são distintos em alguns aspectos sim (Rm 11), porém o vocábulo do Apóstolo Paulo em Efésios 2 do 11 em diante deixa claro que os gentios que são crentes (igreja) são unidos com os israelitas, e com as alianças da promessa.

3. Gentios são coerdeiros, membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa (Ef 3)

4. Fazemos parte de uma nova dispensação.

Conclusões

As conclusões que chegamos ao ver essa pequena análise é que dentro dos grupos extremos existe outros grupos que concordam uns com os outros, embora ter citado apenas pontos extremos dos dois grupos, venho realçando a todo momento que podemos sim dialogar entre as duas chaves hermenêuticas, por exemplo muitos aliancistas concordam que exista uma distinção entre Israel e a Igreja, porém isso não quer dizer que não exista uma ligação entre eles, assim como muitos dispensacionalistas afirma veementemente. Agora biblicamente falando, dentro de Romanos 11 podemos ver claramente que o Apóstolo Paulo fala sobre um futuro à nação étnica de Israel, e embora tenha essa distinção, também podemos ver que Israel e os gentios (Igreja) estão ligados pela mesma raiz e pela mesma árvore, dando um aspecto de continuidade e não de descontinuidade, em outras palavras, a igreja não substitui israel em tudo, porém o Apóstolo Paulo deixa muito claro em outras cartas que gentios e judeus são um em Cristo Jesus. Você sempre vê o Apóstolo Paulo ligando as duas classes. Se possível volte novamente na imagem no começo da postagem e provavelmente você terá uma visualização melhor de algo que seria bem bíblico na perspectiva paulina dos termos Israel, Israel de Deus e Gentios (Igreja).

Minha oração é para que em tudo o que façamos, seja ensinando, seja aprendendo, seja ouvindo, seja escrevendo, possamos fazer tudo isso para a honra de Cristo, para que seu Evangelho da graça soberana possa ser espalhado em todos os quantos da terra. Em nome de Jesus Cristo eu oro. Amém
Fontes:

[1] John MacArthur – Bible Q&A January 09, 1994 code 70-15. gty.org

[2] Ryrie, Charles Caldwell (1965). Dispensationalism Today. Chicago: Moody Press. page 137. Parênteses meu.

[3] Wikipedia – Dispensationalism.

[4] Michael J. Vlach’s book, Dispensationalism: Essential Beliefs and Common Myths. Los Angeles: Theological Studies Press, 2008. (Parênteses meu)

[5] Dr. J. Ligon Duncan – Lecture on Dispensationalism, a reformed evaluation.

[6] ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. V. III. São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 454..

[7] Wikipedia – Covenant Theology

[8] Ibid 7.

[9] Ibid 7.

One thought on “Israel e a Igreja

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  1. amigos e irmãos, indico um livro ótimo para estudar a Igreja, Israel, Pentecostes e a modernidade, é o livro: Israel a Igreja e o Pentecoste!

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