Ética Cristã

Por Tiago Hirayama – Seminário Spurgeonline Julho de 2013

Introdução

A ética cristã é assunto de importância máxima para aqueles que seguem os passos de Cristo. Porque o nome “ética cristã”?

Primeiro é bom esclarecer que o conceito cristão de ética difere do conceito digamos que social de ética, por isso é dado o nome de ética cristã, porque embora gostariamos que todo homem fosse dirigido por esses princípios, não podemos força-los a segui-los, até por que a própria escritura diz: “Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei;

Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os”. Rm 2:14-15

Portanto a ética cristã está inteiramente ligada aos princípios que Deus deixou gravado em sua Santa Palavra, a Bíblia Sagrada.
Quando falamos cristã, estamos nos referindo ao cristianismo histórico, ao cristianismo verdadeiro que vem perseverando através de séculos, passando por provações, dificuldades, intensas perseguições, morte de todos os tipos e etc…Não estamos nos referindo a esse evangelicalismo moderno mediocre que você vê muitas vezes na tv ou escuta nas rádios. Portanto o cristianismo que estamos nos referindo aqui é aquele que diz tome a sua cruz e siga-me, aquele que diz ame aqueles que você odeia, e odeie aqueles que você ama, aquele que diz beba meu sangue e coma da minha carne, aquele que diz arrependa-se todos os dias da sua vida, aquele que diz a minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.

Definindo a ética cristã

Ética cristã é o tipo de vida que se conforma com a vontade de Deus assim revelada em Cristo e na Escritura Sagrada. [1]

O único meio de se conformar com a vontade de Deus revelada em Cristo e na escritura sagrada é através do Espírito Santo, sem o qual se torna impossível de se submeter a padões morais tão elevados de uma forma satisfatória. Podemos dizer que a pessoa normal ou natural pode tentar viver por esses preceitos, entretanto sem a disposição correta no coração que é dada somente pela graça salvadora através do Espírito Santo, toda busca de se conformar com esses padrões acaba se tornando meros atos legalísticos, orgulhosos, e de auto-justificação, onde bem lá no fundo, escondido em um lugar onde somente Deus pode conhecer, estarão enraizados.

Ética cristã tem tudo a ver com aquilo que devemos ser e fazer. E para alcançarmos essa capacidade é necessário a iluminação do Espírito Santo. Precisamos nos lembrar disso a todo momento, pois a situação do homem depois da queda de Adão e Eva é tão desesperada que se não lembrarmos a todo instante sobre a importância do Espírito Santo na capacitação para tais atitudes, podemos acabar como meros professores de uma ética social, tentando levar os incrédulos a obedecerem aquilo que não são capacitados e no pior das ocasiões, levando o incrédulo a acreditar que sua obediência externa aos preceitos e princípios são plausíveis, assim dando uma falsa segurança de salvação a eles.

Quando falamos “Espírito Santo” estamos nos referindo a obra do qual vem habitar dentro do pecador, assim iluminando seu coração e sua mente para as coisas de Deus, regenerando todas as suas disposições e capacitando-os para as atitudes corretas e para a compreenssão correta da Escritura Sagrada.

Ética Cristã também tem tudo a ver com aquilo que é certo ou errado perante Deus, assim é importante para todos aqueles que amam o que é certo e odeiam o que é errado. Vemos que todo ser humano tem uma noção do que é certo ou errado, mesmo que essa noção seja vaga. Os próprios reformadores do Séc XV afirmaram que existe uma lei natural que habita dentro de todo ser humano.

Lei Natural   

Calvino esteve perto de Lutero a respeito desse assunto. Lutero referiu-se a Romanos 2:12-15 para a base do fato de que Deus escreve a lei moral nos corações de todas as pessoas. [2] Referindo-se a mesma passagem, Calvino concorda que a lei natural revela a vontade de Deus, mas o pecado afetou nossa habilidade de segui-la [3]. Calvino concorda com Lutero contra Tomás de Aquino, que essa lei moral foi corrompida pelo pecado, assim sendo a razão não segue mais toda forma pura da lei natural.

Lutero cria que a lei mosaica é uma reafirmação da lei natural cuja a qual estava estabelecida desde do princípio. “A lei natural nunca foi tão ordenadamente e bem escrita como por Moisés” [4]. Da mesma forma, Calvino afirma que a lei escrita na Escritura não passa de uma testemunha para com a lei natural, pela qual Deus chama à nossa memória o que tem sido escrito em nossos corações [5]. [6]

Certo ou Errado

Quando falamos sobre o que é certo ou errado, estamos nos referindo sem sombra de dúvida a uma legislação moral. Não existe uma legislação moral sem um legislador. Em outras palavras, não existe aquilo que é certo ou errado sem antes existir alguem para punir o que é errado ou louvar aquilo que é correto. Portanto o homem natural já é condenado somente pelo fato de ter uma noção daquilo que é certo ou errado, porque não faria sentido nenhum existir o que é certo ou errado se não existisse alguém para punir ou louvar.

Dessa forma o certo ou Errado é definido por Deus em sua Escritura, sendo Ele o legislador máximo de todo ser vivente, sómente Deus pode definir aquilo que é certo ou errado, e aquilo que não está definido claramente, é definido através do bom senso cristão dirigido graciosamente através da graça salvadora pelo Espírito Santo aplicando os princípios e preceitos estabelecidos na Escritura Sagrada.

Então chegamos a um dilema, como saber o que é certo ou errado? e para responder essa pergunta precisamos fazer outra pergunta, para que e porque precisamos saber o que é certo ou errado?

Fim principal do homem

De acordo com o prof Tiago Santos a resposta para essa pergunta seria a seguinte, parafraseando ele,  “para saber como viver a fim de agradar a Deus” [7].

Mas no entanto prefiro ficar com o Breve Catequismo de Westminster como resposta, porque precisamos saber o que é certo ou errado? Essa pergunta leva a pergunta de máxima importancia para todo o ser humano na face da terra. Que seria, qual é o fim principal do homem? Porque o homem existe? Para que ele foi criado?

No qual a resposta magnífica vem, O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre.

E Que regra deu Deus para nos dirigir na maneira de o glorificar e gozar? No qual a resposta seria, A Palavra de Deus, que se acha nas Escrituras do Velho e do Novo Testamentos, é a única regra para nos dirigir na maneira de o glorificar e gozar.

Chegamos então a uma conclusão de que o fim principal do homem não é saber como viver a fim de agradar a Deus, embora seja necessário ser instruido no viver a fim de agradar a Deus, mas sim glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre, concluimos que o meio para se glorificar a Deus é sim saber como viver, mas o fim principal é glorificá-lo e gozá-lo para sempre, e a única regra que deve dirigir o cristão verdadeiro é a Palavra de Deus.

Saber como viver não é um fim em si mesmo, mas sim um meio de se chegar ao objetivo que é glorifica-lo e goza-lo para sempre.

Ética Cristã se basea na vontade de Deus

Ética Cristã é uma forma da posição divina comandada. Uma obrigação ética é algo que devemos fazer. É uma prescrição divina. Com certeza, os imperativos éticos que Deus nos oferece está de acordo com seu caráter moral imutável. Isto é, Deus deseja aquilo que é correto de acordo com seus próprios atributos morais [8]. “Seja santo, porque Eu sou santo” (Lv 11: 45), Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês (Mt 5:48). É impossível que Deus minta (Hebreus 6:18). Deus é amor (1 João 4:16). ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. (Mateus 22:39). Ética Cristã esta baseada na vontade de Deus , portanto Deus nunca deseja algo contrário ao seu caráter moral imutável.

Ética Cristã começa de dentro para fora

Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus;

não por obras, para que ninguém se glorie.

Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos. (Efésios 2:8-10)

Assim como já realçamos acima, a obra regeneradora do Espírito Santo precisa estar presente na vida do pecador para que as obras principalmente de obediência não sejam meramente externas, mas sim começando internamente com a disposição dada pela graça, fluindo para fora e encontrando objetivos certos ao fim de glorificar somente a Deus.

E agora é hora de dizer que é impossível ter o verdadeiro conhecimento e discernimento sem antes ter uma mudança radical de dentro para fora, é impossível. Por isso vemos tantas coisas hoje em dia chamadas de evangelicalismo que não passa de obras exteriores somente, sem discernimento nenhum do que a própria palavra de Deus nos oferece a respeito do caráter do próprio Deus e sua obra redentora. São como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e de todo tipo de imundície. (Mt 23:27)

Sistemas éticos

Bom podemos fazer uma abordagem abrangente de dois sistemas éticos que os teólogos tem debatido bastante. Deontológico e Teleológico.

De acordo com Dr. Geisler Deontológico quer dizer ética centrada na obrigação e Teleológico quer dizer ética centrada no fim. Já de acordo com Dr. David C. Jones Deontológico quer dizer  ética orientada pela obrigação e Teleológico quer dizer ética orientada pelo objetivo. Embora Geisler explique muito bem suas colocações, suas definições talvez não mostram satisfatóriamente o que realmente significa o termo teleológico, porque ele nos leva a entender que o termo é relativo e que o resultado é o foco e não o objetivo. Já com Jones vemos uma diferença na colocação de termos no que nos oferece um entendimento diferente dos dois termos. Bom se a vida do cristão verdadeiro precisa ser dirigida por regras e não por objetivos isso é um debate para os teólogos mais experientes e com mais conhecimento sobre o assunto. Nessa pequena colocação apenas gostaria de dizer que creio que o fim principal do homem é gloricar e gozar a Deus para sempre. Piper com sua famosa colocação diz que o fim principal do homem é glorificar a Deus através de gozá-lo para sempre. Mas precisamos lembrar que existe um propósito principal para o ser humano do porque ele foi criado e é aquilo que o Breve Catequismo de Westminster coloca em sua primeira pergunta e resposta, e realmente concordo com o que o próprio Dr. Jones diz a respeito do fim principal do homem, ele discorda de Piper que diz que glorificamos a Deus através de gozá-lo para sempre, e somente isso! Ao invés, Dr. Jones diz que glorificamos a Deus sim através de gozá-lo para sempre mas também glorificamos a Deus através do crescimento do nosso conhecimento do Senhor Jesus Cristo e na conformidade em sua santidade, e conformidade na felicidade de Deus. [9]

Conclusão

Minha conclusão é aquela onde volto a afirmar que o fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre através do crescimento do nosso conhecimento do Senhor Jesus Cristo e na conformidade em sua santidade e conformidade na felicidade de Deus. Creio que o ser humano foi criado com um propósito, no qual é glorificar a Deus.

Apesar de não ter mencionado o decálogo, ou dez mandamentos, gostaria de dizer que a lei em forma de mandamentos com certeza não foi anulada, mas sim cumprida por Jesus Cristo, mas assim como o prof Romulo Monteiro explicou, esse cumprimento não é no sentido de guardar ou de obedecer mas sim tem um sentido escatológico, onde Cristo cumpri na linguagem de Mateus a lei e os profetas, veja que o sentido é totalmente escatológico, Cristo faz a transição da Velha Aliança para a Nova aliança, e ainda assim não anulando nenhum principio dado na lei em forma de mandamentos por Moisés. Mas ainda tenho minhas reservas nesse entendimento e confesso que preciso estudar mais para chegar a uma conclusão definitiva.

Finalizo com uma oração de Agostinho

Quem me dera descansar em ti! Quem me dera que viesses a meu coração e que o embriagasses, para que eu me esqueça de minhas maldades e me abrace contigo, meu único bem! Que és para mim? Tem piedade de mim, para que eu possa falar. E que sou eu para ti, para que me ordenes amar-te e, se não o fizer, irar-te contra mim, ameaçando-me com terríveis castigos? Acaso é pequeno o castigo de não te amar? Ai de mim! Dize-me por tuas misericórdias, meu Senhor e meu Deus, que és para mim? Dize a minha alma: Eu sou a tua salvação. Que eu ouça e siga essa voz e te alcance. Não queiras esconder-me teu rosto. Morra eu para que possa vê-lo para não morrer eternamente. [10]

Fontes:

[1] David C. Jones – Professor at Covenant Seminary, lecture 2 on ethics: goal of human life.

[2] Althaus, Paul, The Ethics of Martin Luther (Fortress Press, 1972), p 25.

[3] Institutes, 2.8.1

[4] ibid 3.

[5] Bouwsma, William J, John Calvin – A Sixteenth Century Portrait (Oxford University Press, 1988), p72

[6] Robyn Banks – How far did Calvin break with Luther on Ethics, A comparison. August 3rd 2003.

[7] Tiago Santos – Aula 1 Ética Cristã 21:00min.

[8] Norman Geisler – Christian Ethics – Contemparary Issues & Options pg 15.

[9] Ibid 1.

[10] Agostinho de Hipona – Confissões pg 1.

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