A Nova Polícia do Pensamento? Sete expulsos do Facebook e o Futuro da Liberdade de Expressão

Todo grande evento de notícias tem uma sombra — e às vezes a história real está escondida na sombra. É elusivo, está oculto, mas deve ser trazido à luz, a fim de compreender plenamente as consequências de qualquer desenvolvimento digno de notícia.

Uma história que exige esse tipo de olhar mais atento veio com um anúncio na semana passada no Facebook. A gigante das mídias sociais anunciou que proibiu sete pessoas de usar sua plataforma. O New York Times relatou: “Depois de anos hesitando sobre como lidar com as vozes extremas que povoam sua plataforma, o Facebook expulsou na quinta-feira sete de seus usuários mais polêmicos, muitos dos quais são conservadores, inflamando imediatamente o debate sobre o poder e a prestação de contas das grandes empresas de tecnologia”.

O Facebook descreveu os usuários expulsos como propagadores de ódio cujas palavras tinham consequências incendiárias que potencialmente poderiam causar violência.

Louis Farrakhan, o líder da Nação Islã e teórico da conspiração, Alex Jones, da Infowars, foram os dois usuários mais notórios barrados no Facebook. Brett Stevens escreveu um artigo de opinião para o New York Times, onde ele disse: “A questão não é se as pessoas em questão merecem censura. Eles merecem. Ou que as formas de discurso em que propagam têm qualidades redentoras. Eles não tem.

Os indivíduos sacados no Facebook eram famosos por formas de expressão perigosas e, pelo menos aos olhos da grande mídia, mereceram sua saída forçada da maior plataforma de mídia social do mundo.

Essa foi a principal história; mas o que está escondido nas sombras do anúncio do Facebook?

O relatório do New York Times insinuou-o em seu primeiro parágrafo. Repórteres Mike Isaac e Kevin Roose afirmaram que o Facebook tinha lutado durante anos com a interseção da liberdade de expressão e discurso de ódio, concluindo que precisava banir essas vozes extremas.A frase-chave do artigo do The New York Times era o rótulo dessas vozes censuradas: “Muitas das quais são conservadoras”.

Isso levanta uma série de perguntas, a saber, por que o Facebook proibiu quase que exclusivamente vozes conservadoras, deixando intocadas muitas vozes esquerdistas incendiárias?

A questão gira em torno da palavra “conservador” — o que o The New York Times quer dizer quando usa a palavra nesse contexto?

A definição de conservador refere-se a um princípio de compromisso com a conservação — a conservar as instituições e tradições de longo prazo que devem ser protegidas e conservadas, porque são essenciais para a felicidade, a saúde e o florescimento da humanidade. Isso representa um entendimento clássico do conservador. O New York Times, no entanto, não empregou a palavra conservadora no sentido clássico. O jornal usava a palavra “conservador”, mas se referia a um subconjunto radical da direita política.

A “direita” não se equipara ao conservador. De fato, o mesmo princípio se aplica à diferença entre o liberalismo clássico (liberal norte-americano) e a esquerda política. No entanto, a esquerda, geralmente extrema esquerda, controla o capital cultural e criativa das sociedades — eles possuem as plataformas, que decidem quem é permitido em um fórum público e quem não é. O mesmo é verdade para idéias. Os oficiais de controle da cultura moderna são geralmente liberais (esquerdistas). Para eles, a margem da esquerda parece muito menos assustadora que a margem da direita.

Mas a realidade é realmente pior do que acabamos de descrever.O liberalismo (esquerda) muitas vezes não consegue distinguir entre conservadores e extremistas da direita. Isso pode ser motivado por intenção ou descuido, mas o resultado é o mesmo.

Na quinta-feira da semana passada, o Facebook divulgou uma declaração que dizia: “Nós sempre banimos indivíduos ou organizações que promovem ou praticam violência e ódio, independentemente da ideologia. O processo de avaliação de potenciais violadores é extenso e é o que nos levou à nossa decisão de remover essas contas hoje”.

O New York Times informou que a decisão do Facebook “é uma das ações mais amplas da indústria de tecnologia para punir extremistas de alto perfil em um momento em que as empresas de mídia social estão sob fogo por permitir conteúdo de ódio e desinformação se espalhar dentre seus serviços. É um momento politicamente delicado”.

Essa era da mídia social está, de fato, em um momento politicamente delicado e a decisão do Facebook surge como um movimento gigantesco e precedente com implicações morais abrangentes. À medida que o mundo se instala em plataformas como o Facebook para se manter conectada e compartilhar informações, essas empresas privadas operadas livremente têm agora a enorme responsabilidade de funcionar como um árbitro — decidindo qual discurso é a fala permitida e qual discurso é classificado como discurso de ódio extremista. . O Facebook concedeu-se uma autoridade poderosa para decidir quais vozes serão ouvidas em sua plataforma com um número incrível de 2,3 bilhões de usuários.

Com uma participação de mais de um quarto da população mundial, quando o Facebook bane um usuário de seu site, ele efetivamente remove esse indivíduo de uma conversa cultural em todo o mundo.

Facebook, no entanto, encontra-se neste atoleiro moral. Isso serve à civilização para policiar a fala da maneira como o Facebook fez na semana passada? Essa questão deixou perplexas as mentes brilhantes da história humana, especialmente a história americana. Os fundadores da nação conservaram na Primeira Emenda da Constituição uma garantia para a liberdade de fala e liberdade de expressão.

Como todos os direitos protegidos na Constituição, há limites, mas esses limites não são fáceis de definir. A Suprema Corte pode declarar que a liberdade de expressão não permite gritar “fogo” em um teatro lotado. Não está imediatamente claro como esse princípio deve ser aplicado a outros contextos e discursos. Como uma nação que protege a liberdade de imprensa lida com essa liberdade durante um período de guerra? A imprensa está livre para imprimir informações durante a guerra, o que colocaria em risco uma missão ou comprometeria o sucesso de uma campanha militar?

Por mais intrigantes que sejam essas questões, a questão do Facebook apenas intensifica a confusão. A coluna de opinião de Brett Stevens que apareceu no The New York Times argumentou que o Facebook não tem obrigação legal de proteger a liberdade de expressão em virtude do status do Facebook como corporação.Como empresa, tem o direito de definir suas próprias políticas e práticas. O Facebook funciona como um negócio, não um governo vinculado por uma constituição e responsável perante o público. Por outro lado, pode-se argumentar que o Facebook possui mais poder do que muitos governos na Terra, especialmente no que diz respeito ao poder da informação.

Stevens argumenta corretamente: “A questão é muito mais simples: você confia que Mark Zuckerberg e os outros jovens empreendedores do Silicon Valley (província onde as grandes corporações estão situadas) sejam bons administradores do discurso digital mundial? Eu não acredito, mas não é porque os conservadores acreditam (às vezes com razão) que o Valley é culturalmente, politicamente e, possivelmente, algorítmicamente tendencioso contra eles. Tal como acontece com o liberalismo (esquerdismo) na academia, a tendência esquerdista da tecnologia pode ser presunçosa e egoísta, mas isso não impede que os conservadores transmitam suas mensagens. Certamente não impede os republicanos de ganhar eleições. O problema mais profundo é a concentração esmagadora de poder técnico, financeiro e moral nas mãos de um povo que não tem treinamento, experiência, sabedoria, confiabilidade, humildade e incentivos para exercer esse poder com responsabilidade”.

De fato, conhecemos a cosmovisão predominante que governa o Silicon Valley. Os soberanos do mundo digital deixaram isso bem claro.

Mas Silicon Valley encontra-se absorvido em enormes ligações políticas. Duas cosmovisões concorrentes surgem nesse dilema tecnológico, legal e moral enfrentado pelos gigantes das mídias sociais — a saber, o entendimento europeu da liberdade de expressão em oposição ao modelo americano de liberdade de expressão.

A tradição européia da liberdade de expressão considera o direito como condicionado pelos interesses nacionais e pelo poder governamental. Assim, o direito à liberdade de expressão é mais condicional. Em alguns casos, a liberdade de expressão é meramente tolerada. Uma ilustração disso seria criminalizar a recusa em usar o pronome de gênero preferido de uma pessoa. Essa não é uma situação hipotética. Isso está acontecendo na Europa e no Canadá.

Essas nações, portanto, exerceram pressão sobre o Facebook para reprimir os tipos de discurso que aparecem na plataforma. O Facebook enfrenta um dilema: ou vai cumprir com os governos europeus e restringir a liberdade de expressão, ou a empresa enfrentará multas, penalidades ou até mesmo ser fechada nesses países.

Enquanto isso, os Estados Unidos apresentam o Facebook com uma série de outros desafios. Embora a nação proteja a liberdade de expressão, os Estados Unidos permitirão que o Facebook se policie ou o governo federal promulgará legislação para regular o Facebook?

As questões morais e éticas que gravitam em torno das mídias sociais são surpreendentes. Essas empresas de mídia social, dominadas por uma cosmovisão progressista e radicalmente esquerdista entre suas lideranças, têm o poder em suas mãos de encerrar qualquer discurso que considerem odioso e prejudicial. Isso significa que o Facebook ou o Twitter podem encerrar contas associadas ao movimento pró-vida. Mais uma vez, isso não é hipotético.

Então, esta é a história que se encontra nas sombras. As sete pessoas expulsas do Facebook podem ser a ponta do iceberg. Se o Facebook considerar   que algum discurso seja odioso, o que vai impedi-los de rotular o meu discurso ou o seu   discurso como odioso?Quem desenha as linhas e quem decide que a fala não deve desfrutar de proteção? O Facebook nem sequer esclareceu seus critérios.

Vivemos em um dia em que simplesmente opor-se ao aborto ou afirmar a compreensão tradicional do casamento como uma união entre um homem e uma mulher pode ser rotulado como discurso de ódio que causa “dano”. Lembre-se apenas do pai na Colúmbia Britânica acusado de “violência familiar” por se recusar a concordar com a “transição de gênero” de seu filho. Vivemos em um dia em que acreditar que o gênero é binário é , em si, identificado como dano e violência.

Isso significa que aqueles que defendem uma cosmovisão bíblica estarão cada vez mais em uma posição precária com o uso de plataformas de mídia social. Aqueles no Silicon Valley desenharam uma linha na areia.Eles estão vendidos para a revolução LGBTQ e promovem o acesso irrestrito aos abortos. Os Cristãos logo logo podem se encontrar juntos às fileiras dos expulsos por simplesmente manterem uma cosmovisão biblicamente consciente e expressarem essas visões em suas próprias contas de mídia social.

Lorde Acton disse: “O poder absoluto corrompe absolutamente”.

De uma cosmovisão bíblica, no entanto, entendemos que a pecaminosidade humana   corrompe o poder.A centralização e concentração de poder, nesse caso, o poder das mídias e informações sociais, terá resultados desastrosos dentro das sociedades.

O Facebook fez a transição de uma plataforma que permite ao usuário individual conectar-se socialmente a um provedor de conteúdo e informações. O Facebook produz, edita e gerencia seu próprio conteúdo. Isso marca uma mudança fundamental na intenção original do Facebook como uma plataforma social para o usuário.

As regras mudaram. O Facebook mudou. Todo o ambiente e ameaças à liberdade de expressão mudaram. Os cristãos têm a responsabilidade de observar esses eventos e, quando necessário, lançar uma luz sobre as histórias escondidas nas sombras.

A história do Facebook desta semana não é uma história de proibição de vozes violentas de sua plataforma. Não. A história está nas sombras: é a ameaça oculta à liberdade de expressão como a conhecemos.

Sobre o autor: O Dr. R. Albert Mohler é um teólogo e ministro ordenado, e serve como presidente do Seminário Teológico Batista do Sul.

Original aqui
Traduzido por Tiago Hirayama

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