A Lei da Gravidade e as Estrelas: Reflexão Sobre o Dia dos Pais para Órfãos

Quando eu tinha 10 anos meu pai me comprou uma luva de beisebol (aquela de homem de base). Eu digo que foi para mim, mas na realidade era para ele. Ele precisava de uma luva para pegar os arremessos sem direção de seu filho que treinava em uma escolinha de beisebol. Os Atlanta Braves, finalmente, estava jogando bem naquele ano, e eu queria muito ser o próximo John Smoltz [NT- um famoso homem de base, craque entre os anos 1988-2009], então todas as noites, depois do jantar, íamos ao gramado atrás de nossa casa próximo a uma fileira de pereiras. Era como se fosse Smoltz para Olson [NT – outro jogador profissional da liga de baseball, craque dos anos 90]. Repetidamente. Anos depois, meu pai veio a confessar que os arremessos eram tão sem direção que ele também precisou investir em um protetor de órgãos genitais.

Michael Chabon escreveu uma vez que a paternidade é “uma obrigação maior que o dinheiro, que o corpo, ou até mesmo o tempo, uma presença que não pode ser nem medida fisicamente nem pelos cronômetros: em aberto, eterno e invisível, tal como a relaçāo da lei da gravidade com as estrelas”.  Uma realidade invisível tão fundamental que, sem ela, tudo começaria a desmoronar e as próprias estrelas cairiam do céu.

Foi assim que me senti sobre a minha vida um ano mais tarde, como se as estrelas estivessem caindo do céu. Há muitas maneiras de se perder um pai, cada uma com sofrimentos distintos. Morte. Divórcio. Abandono. Perdi o meu pai para o vício, um tipo de morte que compete com a própria morte.

Os viciados ainda não morreram, mas já sumiram. Seu vício os baniu para vagar como fantasmas que assombram a terra dos vivos com a presença de sua ausência. De 1991 a 2000, meu pai ainda estava por perto, mas metaforicamente ausente. Um fantasma do seu antigo eu, assombrando meus jogos da escolinha com sua “presença ausente”.

Feridas Da Ausência De Um Pai

Um dia minha esposa me fez uma pergunta estranha: Quem te ensinou a fazer a barba? Nós estávamos conversando sobre o meu pai, sobre como foi ser criado sem ele. Eu tive que pensar sobre isso por um instante. “Na verdade, acho que foi um colega de faculdade, Rosey.” Em volta daquela conversa, a ausência do meu pai me parecia gigantesca. Não que eu não tivesse tido contato com ele durante aqueles anos. Tive. Visitas supervisionadas após o tratamento de reabilitação. Cartas e telefonemas ocasionais depois de sua prisão. Visitas tensas ao ele reconstruir sua vida com uma nova família. Como se pode perdoar um pai por não ser um pai?

Um conselheiro certa vez me disse: “Você tem que se lamentar pela perda de seu pai ter sido seu pai, e depois decidir se quer uma amizade com ele”. Tudo bem. Porém, como podemos lamentar a perda da lei gravidade? Como colocar as estrelas de volta no céu? Como ensinar a si mesmo a se barbear? Como arremessar Smoltz para Olson sozinho?

A ferida dos órfãos não é facilmente curada. A passagem do tempo certamente não ajuda. Aa únicas coisas que revela são o tamanho da ferida, e o tamanho do dano que os alicerces realmente sofreram. Meu pastor quando eu era garoto gostava de dizer: “O tempo não cura todas as feridas. É Jesus quem cura”.  Eu entendia o que ele queria dizer, mas ainda não tinha uma ideia realista; apenas recentemente comecei a entender. O tempo não é o que cura todas as feridas, mas há um curador, que foi ferido, que usa isto para seus próprios fins.

Um Curador Ferido

Por muito tempo fui indiferente a Jesus. O que o sofrimento dele tem a ver com o meu? Ainda me lembro de estar sentado no escritório de nosso pastor enquanto ele explicava a dinâmica física da morte de Jesus na cruz em detalhes excruciantes. Ele falava intensamente, suas palavras eram convincentes, mas eu continuava impassível. Eu não queria Jesus. Eu queria que Jesus me deixasse sozinho com meus álbuns e videogames. Tudo ficaria bem por enquanto.

E então algo aconteceu. Comecei a me sentir assombrado pelas feridas de Jesus.

Começou lentamente. Comecei a ver que suas feridas significavam algo para as minhas, elas se comunicavam com as minhas em sua própria língua. Minha dor não era estranha para ele. Meus pecados não eram grandes demais (ou pequenos demais) para ele. E talvez o mais importante de tudo, ele sabia o que era se sentir abandonado por seu pai. Ele clamou na cruz com um grito de dor, a dor de ser abandonado, de estar sozinho. E por um momento a gravidade cedeu e as estrelas caíram do céu em uma escuridão total.

“Pelas suas pisaduras fomos sarados.” Foi isto que foi escrito pelo profeta Isaías – e mais tarde pelo apóstolo Pedro. Suas feridas são um mundo de cura e elas se comunicam com nossas feridas. No meu caso, elas ainda estão se comunicando. Henri Nouwen colocou de uma forma melhor:

Jesus é o curador ferido de Deus: por suas pisaduras, somos sarados. O sofrimento e a morte de Jesus trouxeram alegria e vida. Sua humilhação trouxe glória; Sua rejeição trouxe uma comunidade de amor.

Nunca recuperarei o pai que perdi. Mas obtive, através do sofrimento de Jesus, outro Pai que tem sido um pai muito bom. Um pai que prometeu nunca deixar ou abandonar seus filhos.

Estou com quase 38 anos e agora sou pai de três meninas e um menino. Deus ainda não retirou magicamente a ferida que meu pai deixou. Às vezes eu gostaria que ele o fizesse. Ao invés, ele começou o longo trabalho de cura. Tem levado tempo. Mas pela primeira vez em anos eu comecei a assistir os jogos do Braves [NT – time de beisebol] novamente. Na maioria das noites meu filho de 11 anos assiste comigo. Ele ama Ozzie Albies [NT – jogador profissional)]. Freddie Freeman também [NT – outro jogador profissional]. Estou ansioso para ensiná-lo a se barbear.

Sammy Rhodes é pastor no Ministério Universitário da Igreja Presbiteriana nos EUA (PCA) servindo na Universidade da Carolina do Sul, EUA. Ele é o autor de ” This Is Awkward ” [Coisas Constrangedoras] (Thomas Nelson, 2016).

Traduzido por Tiago Hirayama
Original Aqui Gravity and Stars: A Father’s Day Reflection for the Fatherless

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